07/04/2014

Com parque eólico, Santa Vitória do Palmar deixa escassez para trás

Não faz tanto tempo que a cidade de Santa Vitória do Palmar, no sul do Estado, era iluminada pela metade. Luz elétrica? Da calçada do Teatro Independência em direção à zona norte, só de manhã; da Praça Central em direção à zona sul, só à tarde. A década era 1950 – e ninguém imaginava que […]

Não faz tanto tempo que a cidade de Santa Vitória do Palmar, no sul do Estado, era iluminada pela metade. Luz elétrica? Da calçada do Teatro Independência em direção à zona norte, só de manhã; da Praça Central em direção à zona sul, só à tarde. A década era 1950 – e ninguém imaginava que os ventos que estremeciam as janelas iriam se transformar, algumas décadas depois, em fonte de energia não só para os quase 40 mil habitantes da cidade, mas para todo o Brasil.

O Complexo Eólico Geribatu, em implementação pela Eletrosul, representa investimento de R$ 1,5 bilhão, cifra inédita na economia da cidade cujo comércio ainda conserva ares do século 19. O projeto promete desenvolvimento, suscita dúvidas sobre o futuro do município e, à medida que vão sendo erguidos os cata-ventos próximos ao Balneário Hermenegildo, atrai olhares de quem transita pela BR-471.

É tanta novidade que a própria prefeitura já tratou de anunciar no pórtico de entrada: “Os ventos daqui vão gerar energia para o Brasil”. Sentem o impacto das obras, principalmente, o comércio e o setor de imóveis. Corretor e dono de uma imobiliária há mais de 30 anos, Vulmar Dinegri diz que os preços dos aluguéis mais que dobraram em relação ao ano passado. Um apartamento de um quarto que antes era locado por R$ 400 ao mês, hoje pode chegar a R$ 950.

– É pouca oferta de imóveis pra muita gente – justifica.

Nas lojas, o movimento aumentou. Bruna Bueno, gerente de uma padaria no centro da cidade, conta que nunca vendeu tanto prato-feito. Do outro lado da rua, em uma loja de confecções, as proprietárias Naifa e Samira Hasan e a atendente Valesca Vernetti sabem até o dia de pagamento dos funcionários da obra.

– Eles recebem por quinzena. A cada dia 15 e a cada dia 30, eles vêm aqui e fazem a festa – conta Valesca.

Mas se o comércio celebra o acréscimo de quase mil pessoas na população urbana (estimativa da prefeitura), a qualidade de vida dos mergulhões – apelido carinhoso dos vitorienses –, não tem mudado, dizem as lojistas. Os serviços de saúde e transporte ainda são, na opinião delas, os gargalos de Santa Vitória do Palmar. Diretor administrativo da Santa Casa de Misericórdia, Édio Acosta observou um leve aumento no número de atendimentos no hospital desde julho, quando os trabalhadores dos parques eólicos começaram a se instalar na cidade. Nada significativo, afirma:

– Não aumentamos o número de leitos nem fizemos processo seletivo para contratação de profissionais.

Como cidadão, entende que o município não estava preparado para receber um empreendimento do porte do Complexo Geribatu.

– Tudo encareceu. Todos os serviços. A gente espera que, quando acabe, pelo menos venha a energia.

E virá, garante o diretor da Eletrosul, Ronaldo Custódio. Os parques estão conectados a uma subestação coletora no meio do parque, ligada à primeira subestação Santa Vitória do Palmar, que dará conta de abastecer a região – consumidora de, no máximo, 50 megawatts (MW) dos 258 MW de potência do Complexo.

– Primeiro, vamos atender ao consumo local. O excedente vai para o restante do Estado e do país.